O futebol e a morte

Entenda a relação entre o Cemitério do Araçá e o esporte mais popular do país, o futebol.

Talvez, um dos locais que mais deixa transparecer a relação entre entre o futebol e a morte, seja o Cemitério do Araçá.

E para começarmos a entender tudo o que envolve essa conexão, que diríamos ser até incomum, falemos primeiro sobre o bairro onde está localizada essa necrópole, sendo o pontapé inicial de toda essa história.

Localizado num dos corações da capital paulistana, ele foi construído no bairro do Pacaembu, sendo esse um local tombado pela prefeitura, devido a isso permanece quase que intocável diversos pontos turísticos do bairro.

Sendo repleto de construções aos moldes antigos e variados estilos arquitetônicos, elas se misturam em meio ao grande paisagismo e  área verde que o bairro possui.

Cemitério do Araçá 

Fundado em 1887, por conta de uma epidemia que causou diversas óbitos na cidade sobrecarregando as demais necrópoles da região, o Cemitério do Araçá possui 222 mil metros quadrados, sendo considerado local de médio porte em São Paulo.

Com partes de sua construção sendo tombadas como patrimônios arquitetônicos da cidade, ele se relaciona diretamente com outros dois importantes pontos do bairro, e se onde começa sua ligação direta com o futebol, estamos falando da Praça Charles Miller e o Estádio do Pacaembu, marcos do futebol paulistano.

Italianos

Um outro fator marcante, que traz essa relação direta com o esporte mais popular do mundo, foi que além de sua construção ter sido por conta da pandemia, ainda havia o fator da grande chegada de imigrantes italianos a cidade.

O Cemitério da Consolação, localizado próximo ao do Araçá já não tinha mais capacidade para receber os imigrantes falecidos, então logo após sua construção, a necrópole do Araçá virou referência para sepultamentos dos imigrantes oriundos da Itália.

E sendo ela uma das nações de mais sucesso e prestígio no futebol mundial, alguns filhos e netos de imigrantes italianos com grande reconhecimento no esporte estão sepultados no local, dentre eles, podemos citar dois esportistas que sem dúvidas marcaram época em nosso país.

  • Vicente Feola

Nascido em 1909 na capital paulista e filho de imigrantes italianos vindos da cidade de Castellabate, sendo um local próximo a cidade Nápoles, Vicente Feola atuou por equipes como o São Paulo e o Americano.

Mas, alcançou o sucesso e grandes feitos em sua carreira como treinador, começando na Portuguesa Santista, ele treinou ainda o São Paulo e a partir desse trabalho chegou a Seleção Brasileira.

Após o grande impacto sofrido com a derrota do Mundial no Brasil em 1950 para os uruguaios, a Seleção precisava de alguma forma trazer o título para seu povo.

E no ano de 1958, com Vicente Feola a frente da Seleção, foi conquistado a nossa primeira Copa do Mundo, graças a um elenco de enorme qualidade e também por conta de um jovem jogador que foi a aposta de Vicente para esse título, o lendário Pelé.

  • Félix Mielli Venerando

Nascido em 1937 e morador do tradicional bairro da Mooca, conhecido por sua forte ligação com os imigrantes italianos, Félix era neto de italianos de que chegaram à cidade por volta de 1930.

Começando a carreira pelo Nacional A.C em 1951, Félix Mielli posteriormente passou pelas categorias de base do Juventus da Mooca, clube com fortes ligações referentes a Itália, até que se firmou como profissional na Portuguesa de Desportos durante 13 anos e Fluminense por 11 anos.

Félix conquistou importantes títulos por ambos clubes atuando como goleiro, mas o auge de sua carreira veio em 1970 como um dos destaques da seleção na conquista da Tricampeonato da Copa do Mundo sediada no México.

O Coveiro

Osmair Camargo Cândido, mais conhecido como Fininho é coveiro no Cemitério do Araçá e têm em sua memória diversas histórias que mostram essa proximidade da Necrópole com o futebol.

Formado em Filosofia pela Universidade Mackenzie, Fininho diz que o Cemitério está localizado em uma área que ele próprio denomina de quadrilátero da morte, sendo formada pelo Cemitério do Araçá, Faculdade de Medicina e Saúde da USP, Hospital das Clínicas e o Instituto Médico Legal.

E em meio a esses locais, encontramos o Estádio Paulo Machado de Carvalho, popularmente conhecido como Pacaembu e patrimônio cultural e futebolístico da cidade de São Paulo.

Diversos torcedores quando vão os jogos no estádio, para chegarem ao local passam por volta dos muros da Necrópole do Araçá, e o coveiro Fininho numa entrevista realizada para o “Museu do Futebol” lembrou de algumas histórias que envolvem os torcedores e o Cemitério.

Caminho Incomum

Segundo o relato de Fininho, como forma de encurtar a distância para chegar ao Estádio, os torcedores que vinham de regiões como Paulista, Consolação e estações próximas, adentravam o cemitério para chegarem de forma mais rápida ao estádio do Pacaembu.

Fininho conta ainda que os mesmos iam bebendo e fumando de forma tranquila até o destino final, sem que tivesse qualquer tumulto ou desrespeito com o local.

Dener

Talvez um dos futebolistas mais emblemáticos que esteja sepultado no local, é o do ex-jogador Dener Augusto de Sousa, conhecido como o “Reizinho do Canindé”.

Nascido em 1971, atuou pela Portuguesa de Desportos durante os anos de 1989 e 1993, foi emprestado para o Vasco da gama em 1994, este que seria seu último clube.

Após uma reunião em São Paulo, onde Dener negociava sua transferência para o futebol alemão, ao voltar para a cidade do Rio de Janeiro, se envolveu em um acidente de carro que tirou sua vida.

Dener deixava o futebol brasileiro e uma carreira de sucesso aos apenas 23 anos de idade, causando uma enorme comoção em todo país pela sua morte.

Foi sepultado no Cemitério do Araçá, sendo visitado por diversos torcedores e fãs do ex-craque até os dias atuais.

Visitas 

Por conta de ser um cemitério com jazigos e mausoléus monumentais, o local recebe visitas de alguns admiradores desses aspectos arquitetônicos fúnebres.

Mas, diversos amantes do futebol também vão ao local, em sua maioria para visitar os túmulos dos famosos jogadores lá sepultados, e se você também se interessou, visite o Cemitério e quem sabe você encontra o coveiro Fininho, que sem dúvidas irá trazer ainda mais histórias sobre a necrópole e sua ligação com o futebol.

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